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Comunicado 02/15

 

O site "Dialética do humano" estará em www.dialeticadohumano.net e não mais sob o domínio anterior, pelos motivos já expostos em nossa autocrítica.

Delari. CED/PR, 08-02-2015.

 

Comunicado 01/15

 

A página "Dialética do Humano" ficará sob o domínio vigotski.net apenas em caráter transitório. Até o registro de seu próprio domínio.

Delari. CED/PR, 04-02-2015.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Proposta inicial para direção da página "Dialética do Humano" [1]

 

"(...) a dialética da psicologia é ao mesmo tempo também dialética do humano [2] como objeto da psicologia, tal como a dialética da ciência natural é ao mesmo tempo também dialética da natureza"

 

Vigotski (1926-27/1982, p. 322)

 

 

I

 

O leitor pode encontrar em outra página uma breve auto-crítica nossa e um desejo de mudança. Resumirei aqui em que consiste tal desejo, sabendo de todas as dificuldades materiais que envolvem a luta por realizá-lo, mesmo em escala bem reduzida diante das demandas sociais urgentes nos tempos sombrios que vivemos. Ele consiste em deixarmos de nos apresentar e/ou de efetivamente continuarmos sendo, sem qualquer sucesso, "estudiosos de um autor" - por mais insurgentes e atuais que sejam seus projetos nunca realizados. Para tomarmos para nós a tarefa mais modesta e ao mesmo tempo mais trabalhosa, de virmos a nos tornar "estudiosos do ser humano", concebendo-o dialeticamente.

 

Mais modesta porque temos presenciado discussões, algumas meramente lexicais sem chegar a ser conceituais, outras biográficas sem chegar a ser históricas no sentido da história humana como "história da luta de classes" (Engels, 1883/2003, p. 10). Discussões que, sem produzir divergências e acordos fecundos, perdem-se em disputas para demonstrar quem tem maior "autoridade" para dizer como "realmente" pensou certo autor genial, há muito já morto. Com cada autoridade, por fim tentando mostrar que ele pensou exatamente aquilo que eles mesmos sempre disseram desde suas primeiras afiliações universitárias. Alguns buscando até mesmo estabelecer o único significado verdadeiro daquilo que ele talvez tenha dito, numa língua que a maioria em nosso país sequer consegue transpor ao alfabeto latino.

 

Isso nos soa muito imodesto. Pode-se passar uma vida buscando a "palavra final" sobre como alguém pensava sobre os mais variados temas (da vodka preferida ao respeito a Espinosa), e não se chegar a saber nada significativo para nosso trabalho junto a seres humanos que vivem hoje! É praticamente impossível determinar a total extensão do modo de pensar de uma pessoa em carne e osso, em suas múltiplas determinações vitais. Entendemos como erro metodológico tomar o conhecimento de quem foi o cientista como critério essencial para avaliar a validade de seus conceitos para a prática social. O que estabelecerá tal validade é a própria prática social, não a compreensão sobre o psiquismo social de quem os formulou, ou sistematizou, fundindo as mais diversas influências. Mesmo assim temos nos perdido em detalhes sobre acontecimentos biográficos idiossincráticos, como quem segue os atos de um personagem de Dostoiévski ou de Shakespeare... para capturar sua verdadeira "alma"...

 

Ao mesmo tempo, a tarefa é mais trabalhosa. Se é impossível dominar tudo que pensou um só homem, mesmo que ao final retornemos a seus conceitos científicos, que ele próprio nunca formularia sozinho, também é trabalhoso obter uma visão generalista crítica sobre como todos nos constituímos. Mas, do ponto de vista do método, é mais plausível nos armarmos da crítica do geral sobre o humano para então podemos compreender melhor nossa especificidade como pessoas, do que passar a vida explorando um caso específico, para ao final "provar" o sabido desde o início: não há outro igual! Nem mesmo esta única pessoa poderá ser considerada igual a ela mesma após certo período histórico, que não se avalia apenas por critério cronológico quantitativo. Desse modo, vimos a entender com ajuda de diferentes autores a que pudemos ter acesso, sobretudo de pensamento radicalmente dialético, indomável por formalismos acadêmicos, que não será mergulhando no que temos de exclusivo a cada um que saberemos como agir melhor. Mas, ao contrário, só o faremos investigando o que temos radicalmente em comum como seres humanos e que não se confunde, de modo algum, com qualquer lista resumida de traços formais platônicos.

 

Nos toca profundamente a dialética por não nos deixar descansar em nossas definições formais. Pois é laborioso o caminho da cognição que parte da compreensão do geral para rumar ao domínio do específico. Porque este é dado de início, mas em relação inter-constitutiva com o geral e não como apreensão imediata; e aquele está dado de início, mas por seus fenômenos não se obtém a estrutura interna de suas contradições. Não há descanso em partir do radicalmente geral ao humano, pois é justamente o que dará mais trabalho explicar e transformar: nossas condições de vida, como seres históricos, sociais, simbólicos. Apenas ante estes três atributos cruciais já notamos o desafio do trajeto de retorno ao específico. Porque sendo ontologicamente sociais, cada um de nós só será entendido mediante relações em que nos inserimos ativamente em múltiplas formações inter-pessoais, grupais, institucionais, classistas, em diferentes tempos. Porque sendo devir histórico, jamais seremos duas vezes os mesmos, embora não careçamos de organização estrutural-dinâmica apropriada em nossas relações e continuemos sendo, em parte, quem já fomos. Porque tendo historicamente produzido mediações simbólicas necessárias para viver, não podemos explicar suas funções apenas como conjunto de regras sintáticas. Precisamos nos confrontar com a pluralidade de vetores semânticos, em luta na arena dos processos simbólicos, na qual também se trava a luta de classes...

 

Deste modo, optar pela busca de irmos do geral ao específico não é fazer apologia da catalogação resumida do que está sempre presente em qualquer pessoa como forma de guiar nossas investigações. Por esse motivo, não nos trará mais sossego, nem menos esforço, esta opção. Como também não trará a celebridade dos grandes especialistas em autores, em sua permanente campanha por manter o poder de fazer calar quem lhes questiona, para que não lhes perturbem o descanso na paz de suas certezas. Esta é, em linhas gerais, a orientação política e epistemológica que tentaremos tomar como fator de organização das nossas ações aqui. Entendemos que seja pelo critério da coerência ou falta de coerência nossa para com tal orientação que devamos ser criticados permanentemente, por nossos companheiros de luta, já que as autoridades sobre nós não se pronunciarão, pois não fazemos parte de seu ambiente de trabalho, nem estamos interessados nos mesmos assuntos.

 

 

 

II

 

Esta seção será dedicada a desenhar alguns contornos, também iniciais, sobre como compreendemos a afirmação de que "(...) a dialética da psicologia é ao mesmo tempo também dialética do humano* como objeto da psicologia" (Vigotski, 1926-27/1982, p. 322). Já que nos dedicaremos aqui, prioritariamente, à "dialética do humano", sendo e não sendo a "dialética da psicologia" o mesmo que aquela, será indispensável dialogarmos sobre como podem a metodologia da ciência (a dialética) e seu objeto de estudo (o humano) serem e não serem o mesmo processo. Com base em que leis, formuladas a partir de experiências forjadas ao longo de milênios de trabalho humano, estes aspectos da realidade se unificam e se diferenciam,  contradizendo-se, num sistema conceitual integrado e multifacetado? Como podem tais conceitos de alto grau de abstração nos auxiliarem como "ferramentas heurísticas" na edificação geral do nosso pensamento teórico e metodológico, com vistas à prática social?

 

Mas o desdobramento de nossas elaborações sobre esses macro conceitos essenciais, só será feito em seguida. Pois não podemos mais esperar para tornar públicas as linhas gerais de nossa mudança de rumo. Uma vez que isso seja dito em rede aos demais interessados, o sentido de compromisso assumido e o desejo de fazer as coisas irem adiante se intensificam. Nós, tendo encontrado uma mais justa adequação entre meios e finalidades para nosso trabalho, tantas vezes desmontado por golpes políticos, nos sentiremos mais motivados a completar algumas das operações táticas necessárias para a nova e antiga "tarefa inacabada". Há, assim, um renovado e antigo impulso para agir. Sabendo que o todo estratégico da "tarefa" escape aos nossos parcos recursos materiais, dentre os quais minhas próprias dificuldades cognitivas e afetivas. Tendo consciência de que o trabalho rumo a uma meta coletiva maior, necessariamente, só continuará fazendo sentido em função do que determinar o curso da história, na ação e paixão das gerações que estão por vir,  em "eras e dias".

 

Continua...

 

 

*    *    *

 

 

Achilles Delari Junior, pelo CED/PR.

Curitiba, 04 e 05 de fevereiro de 2015.

 

 


 

Notas

 

[1] Esta proposta, de 04 e 05 de fevereiro de 2015, para direcionar os conteúdos das páginas do site "Dialética do humano" em seu domínio, é "inicial" não só por partir da autocrítica às propostas anteriores - uma efetivada de 2010 a 2014 e outra que apenas anunciamos em 21 de setembro de 2014. Também é inicial porque ainda há quase tudo por ser feito e muito por ser refeito, organizado de outra maneira e sob uma outra hierarquia num dado sistema conceitual. Por esse mesmo motivo consideramos que tal proposta seja incial e também aberta - tanto a reformulações por nosso próprio coletivo, quanto a críticas e sugestões dos leitores que venham a contribuir para dar mais radicalidade à nossa proposta e projeto. O qual contempla estudos extensivos, sistematização e socialização das discussões que viermos a travar com as fontes estudadas e com todos os que nos auxiliarem a tomá-las de modo mais radical. [voltar]

 

[2] Traduzimos por "do humano". Pois em russo a palavra é "tcheloveka" [человека] um genitivo singular de "tchelovék" - que significa homem no sentido mais amplo de "pessoa" ou "ser humano". Apesar de ser uma palavra masculina, não causa a mesma marca de gênero que há no português, pela homonímia de "homem" como "masculino de mulher" e "homem" como "ser humano". Pois, em russo, há outra palavra russa para o primeiro caso que é "muj" [муж]: "homem, varão" e também "marido, esposo". Por esta razão e para conferir um grau de generalidade maior à palavra, temos preferido traduzir "tchelovék" por "humano", embora em muitas traduções tenha ficado apenas como "homem" e em outras se o veja traduzido como "pessoa". Isto acontece no texto, na Rússia publicado com o título, não dado por Vigotski, "Psicologia concreta do homem". No Brasil, neste mesmo material, várias vezes "tchelovék" se traduz como "pessoa", sem explicitar-se ao leitor que "Psicologia concreta da pessoa" seria então também uma forma correta de se traduzir o título dado por editores russos a anotações suas, escritas, ao que consta, em 1929. [voltar]

 

 

 

Referências

 

ENGELS, F. (1883/2003) Prefácio à edição alemã de 1883 do “Manifesto comunista”. In: ENGELS, F.; MARX, K. H. Manifesto comunista. São Paulo: Instituto José Luís e Rosa Sudermann. 68 p. [voltar]

 

VIGOTSKI, L. S. (1926-27/1982) Istoritcheskii smisl psikhologuitheskogo krizisa: metodologuitcheskoe issledovanie. In: ______. Sobranie sotchinenii v shesti tomakh. Tom Pervii. Voprosi teorii i istorii psikhologuii. Moskvá: Pedagoguika. s. 291-436. [voltar]