Anotações diversas, por ADJr.

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III - Sobre similaridades estruturais entre demência e autoritarismo sem concessões ao psicologismo das visões inatistas em psicopatologia.

ANOTAÇÃO 1 - Haveria semelhança estrutural entre demência, intransigência e autoritarismo?

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Estudando a demência no “Mal de Pick”, pesquisadores soviéticos (1) notaram que os sistemas de processos mentais em ação nas pessoas com esta doença são, em síntese, indiferenciados e sem agilidade. Isso mudaria as suas modalidade de “conexão com o campo”. Ou, como nós preferimos dizer, mudaria suas modalidades de produção de intercursos sociais, suas relações com os outros e com elas mesmas, mediadas por processos simbólicos. A “conectividade” do doente com seu “campo”, em sua atividade em geral, inclusive seu pensamento (entendido já como processo afetivo e cognitivo), seria caracterizada por tais aspectos encontrados nos sistemas de processos mentais prevalentes na demência: indiferenciação e falta de agilidade.

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Não entendemos que isso seja idêntico à intransigência que produzimos em nossas relações sociais cotidianas, mas pode haver semelhanças. A indiferenciação pode insinuar-se quando apresentamos atitudes como: (a) incapacidade de diferenciar a avaliação que fazemos de nossa relação com uma dada pessoa daquela que fazemos de nossa relação com outra que tenha história e referências culturais bem diferentes da primeira; (b) dificuldade de diferenciarmos como devemos agir com uma mesma pessoa em contextos sociais distintos; (c) impossibilidade diferenciarmos e ponderarmos o que, em cada um de nossos vínculos sociais, joga a nosso favor ou se coloca contra nós; (d) redução da compreensão que temos dos outros e de nós mesmos a estereótipos sobre como “todos” deveriam agir para serem considerados “corretos”. Tais atitudes podem compor uma postura moral e política intransigente, quando não autoritária.

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Alguma relação se vê também quanto ao problema da falta de agilidade do pensamento e da atividade em geral. Basicamente, trata-se de nossa incapacidade de criar novos meios para atingir nossos objetivos quando algo inesperado, fora das nossas convenções, acontece. Ou de uma séria dificuldade de reavaliarmos a pertinência dos nossos próprios objetivos iniciais para dimensioná-los de outra maneira. Nas demências se apresenta uma degenerativa tendência de a pessoa se tornar menos capaz de sair por si mesma de determinadas situações problema, desde aquelas inusitadas até as que antes resolveria de modo automático. Talvez, nas atitudes intransigentes se apresente algo similar, quando não conseguimos superar situações problema mesmo atuando em cooperação com outras pessoas. Inclusive ao nos pautarmos no imperativo de que é mais simples tratarmos sozinhos de nossos problemas do que termos o trabalho de compor com uma coletividade para enfrentar desafios maiores.

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Indiferenciação e falta de agilidade… Características que podem advir não apenas da degradação do sistema nervoso, mas também da restrição política de nossos recursos comunicativos, intelectuais e afetivos, empobrecendo o curso de nossos diálogos, no seio de diversas relações sociais. Gerando, nas mais próximas, teimosias e grosserias. E, nas mais amplas, sectarismo e autoritarismo — gérmen do fascismo. É preciso diferenciar para ter agilidade nas ações, pensamentos e sentimentos que sejam mais fiéis às contradições da realidade em seu permanente movimento. E ganhar agilidade em sentimentos, pensamentos e ações pode ampliar nossa capacidade de diferenciar formas aparentemente idênticas de as pessoas e grupos se portarem. Pode nos ajudar a ter mais discernimento.

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Porém, se a demência é uma doença e nos causa comoção, a intransigência nos causa aversão, quando é do outro, e sustentamos com orgulho, quando é nossa. Nos dois últimos exemplos, jamais se falará em buscar um “tratamento”… Não por serem algo biologicamente irreversível, mas por serem algo socialmente tratado como alheio às nossas incumbências éticas e políticas: “não é problema nosso”. Não se trata, aqui, de classificarmos como “patologia” o que são fatos e processos históricos e culturais. Mas nos impactou a constatação de que estruturas tidas como patológicas se assemelham às que, tristemente, também se apresentam na vida social que desejaríamos ser considerada a “saudável”…

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Curitiba-PR, 26 de agosto de 2016.

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(1) Birnbaum, G. B.; Samukhinim, N. B.; Vigotski, L. S. K voprosu o dmentsii pro bolzeni Pika // Sov. Nevropatologuiia, psikhiatriia, psikhoguiguiena. 193. T. 3. Vip. 6. S. 97-136.

ANOTAÇÃO 2 - A “indiferenciação” na demência e nas estruturas gerais da comunicação humana.

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O estudo da “dissolução” (распад) de relações intervencionais sistêmicas entre processos que integrados compõem a dinâmica do psiquismo humano no seu desenvolvimento geral, não é apenas para estabelecer como são as “excessões”. Mas, principalmente, para encontrar leis profundas que regem o desenvolvimento social de todo ser humano. Leis que não se dão a ver facilmente na vida tida como “saudável”, pelo fato de que os processos estão bastante coesos e se organizam de modo aparentemente espontâneo. Nosso interesse pelas estruturas gerais que estão particularmente desfeitas ou alteradas em casos de demência na doença de Pick, por exemplo (1), é por elas serem as mesmas presentes em pessoas que não apresentam este adoecimento. As mesmas, ainda que articuladas de modo, por assim dizer, mais eficaz. Desejamos aprender como se organizam tais sistemas afetivo-cognitivos nas pessoas em geral. Tanto mais por a organização dita “saudável” destes sistemas ser produzida mediante um conjunto de relações sociais. As quais, desde o início, impulsionam e constituem as funções mentais propriamente humanas, sua integração sistêmica e sua estruturação semântica (“dotada de sentido”). Citamos, por tradução nossa:

“O caráter indiferenciado [a indiferenciação] pressupõe ou [a] uma total ausência de sistemas de comunicação; ou [b] uma comunicação demasiado ampla. Na primeira circunstância temos tensão, na segunda fluidez do sistema. Junto à tensão origina-se a indiferenciação porque está ausente a plasticidade indispensável para a produção de formações sistêmicas e suas estruturas internas. Junto à fluidez demasiado ampla, a comunicação se faz tão estupenda que se apaga totalmente a delimitação entre sistemas. E toda dinâmica das cargas afetivas apresenta-se como algo extremamente fundido, [além de] efêmero, vago”. [1]

Em forma de diagrama, colocamos o conteúdo desta citação da seguinte maneira:

Curitiba-PR, 4 de setembro de 2016.

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(1) Birnbaum, G. B.; Samukhinim, N. B.; Vigotski, L. S. K voprosu o dmentsii pro bolzeni Pika // Sov. Nevropatologuiia, psikhiatriia, psikhoguiguiena. 193. T. 3. Vip. 6. S. 97-136.