Anotações diversas, por ADJr.

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VII - Sobre o caráter pseudocientífico de declarações sectárias sobre o termo “zona blijaichego razvitia”, por ignorância da definição do próprio autor e/ou por foco descabido em escolhas lexicais superficiais.

ANOTAÇÃO 1 - “Zona blijaishego razvitiia” como distância entre dois níveis é definição de Vigotski, não de tradutores/intérpretes.

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O termo composto “zona blijaishego razvitiia” [зона ближайшего развития] literalmente se refere a uma analogia entre “avanço qualitativo dos processos de desenvolvimento” e “grandezas quantitativas com apresentação espacial”. Independente das diferentes formas de traduzir os nomes destes dois níveis, que tenham chegado ao grande público leitor no Brasil, tal apresentação espacial está presente claramente nas fontes russas disponíveis. Ela é estabelecida de modo praticamente trivial mediante a noção de o desenvolvimento poder ser visto como constituído de dois níveis e uma “área”, “região” o “zona” (cognato para russo e português) situada entre tais “níveis” - um deles traduzido por “efetivo”, “atual”, “real”, e outro por “potencial”, “possível” ou “atingido ao resolver problemas sem autonomia” (trad. de Prestes). O desconhecimento da “imagem”, ou “figura de linguagem”, de ênfase espacial que é inerente a tal analogia na própria definição do autor, seja defensável ou não, levou à propagação de posição confusa e sectária no Brasil, até mesmo em eventos acadêmicos públicos. 

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Confusa por pretender defender que seria erro conceitual falar em “duas zonas de desenvolvimento” (quando se trata de dois “níveis”). E sectária por arbitrar que teorizar o tema mediante “três” constructos levaria ao “idealismo” ou a uma “leitura não dialética”. O que, se tivesse fundamento, levaria a supormos a necessidade de colocar o próprio Vigotski como “idealista” ou “anti-dialético”. Difícil de entender, pois o pensamento organizado pela mediação de um terceiro termo, na relação contraditória entre outros dois é próprio da tradição dialética. Sendo o paradigma da “imediaticidade”, ou seja da relação direta entre apenas dois termos geralmente criticado pelos estudiosos dialéticos como sendo mecanicista. Entretanto, consideremos adequado ou inadequado, Vigotski é quem primeiro de fato fala, literalmente, não de “duas zonas de desenvolvimento” (algo que  uma vez dito indica falta de leitura do autor), mas de “dois níveis de desenvolvimento” e uma “zona”. Definida pela distância entre eles. Isso se repete nas traduções seja como “distância”, “diferença” ou “discrepância” entre dois níveis. E podemos notar claramente em tradução do russo feita por Prestes:

“A zona blijaichego razvitiia é 

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a distância entre 

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o nível do desenvolvimento atual da criança, que é definido com ajuda de questões que a criança resolve sozinha, e 

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o nível do desenvolvimento possível da criança, que é definido com a ajuda de problemas que a criança resolve sob a orientação dos adultos e em colaboração com companheiros mais inteligentes.”

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(Vigotski, 2004*, p. 379 apud Prestes, p. 173, grifos nossos)

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Achilles Delari Junior

Atualizado em: 15.09.2018. 7h20min

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* Psirrologuia razvitiia ribionka. Moskva: Eksmo. 2004. [tal como referenciado por Prestes]

ANOTAÇÃO 2 - A noção espacial de “zona entre níveis” reflete modo de tratar a quantificação dos processos psíquicos.

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É possível que a citação que fizemos na anotação “1” ainda não caracterize tão fortemente a analogia com base em critérios “espaciais”. Em busca de corroborar nossa interpretação quanto a isso, acrescentamos outra em que tal recurso argumentativo do autor em questão fica mais evidente. Entende-se isto, por conta de seu caráter aritmético, nesta ocasião, o autor apresenta números para “medir” tal “distância”. O que é dificilmente passível de ser diluído por opações lexicais de tradutores, a notação para os números em caracteres arábicos é a mesma em russo, inglês, espanhol ou português:

“Suponhamos que nós definamos a idade mental de duas crianças que verifiquemos ser equivalente a 8 anos. Se não nos detemos nesse ponto mas tentamos esclarecer como ambas as crianças resolvem estes testes destinados a crianças das idades seguintes - e se as ajudamos com demonstrações, perguntas sugestivas, início de solução, etc., verificamos que uma criança pode, com ajuda, em cooperação e por sugestão, resolver problemas elaborados para uma criança de 12 anos, ao passo que outra não consegue ir além da solução de problemas para crianças de 9 anos. Essa discrepância entre a idade mental real ou nível de desenvolvimento atual, que é definida com o auxílio dos problemas resolvidos com autonomia, e o nível que ela atinge ao resolver problemas sem autonomia, em colaboração com outra pessoa, determina a zona blijaishego razvitiia. Em nosso exemplo, esta zona é de 4 anos para a primeira criança e de 1 para a segunda. Podemos afirmar que o nível de desenvolvimento mental é o mesmo e que o estado do seu desenvolvimento coincide?” (Vigotski, 1933-34/ 2001, p. 237)

Notamos que se trata de um modo ainda frágil, por parte de Vigotski, de enfrentar o tema do avanço do desenvolvimento, já que se pauta na quantificação própria dos testes psicométricos tradicionais. Em outros textos o mesmo autor nos permitirá trabalhar o conceito em termos de saltos qualitativos, focando aspectos relativos à mudança ontogenética da “neoformação principal” em função da emergência de uma nova “situação social do desenvolvimento”. Algo distinto da simples ampliação no escore da criança em certo conjunto de tarefas, caso receba algum tipo de auxílio de pessoas mais experientes. Seja como for a concepção da dita “zona blijaishego razvitiia” é apresentada como “distância”, “diferença”, “discrepância” entre dois níveis. Quando os termos são quantitativos, a apresentação espacial dessa distância fica mais evidente. No diagrama a seguir nos valemos dos números contidos na citação anterior:

Diagrama nosso, termos de Vigotski (1933-34/ 2001, p. 237)

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Achilles Delari Junior

Atualizado em: 15.09.2018. 7h25min